Desvendando os Dividendos - Parte 1/2
Pela Lei das S.A., as empresas são obrigadas a distribuir pelo menos 25% do lucro líquido do exercício em forma de dividendos. Esta taxa é conhecida como pay-out e varia entre 25% e 100% (empresas com prejuízo no último exercício não distribuem dividendos). Distribuir 25% de dividendos significa manter os outros 75% do na empresa em forma de reinvestimento - essencial para o crescimento da empresa.
Neste ponto de vista, podemos considerar que a parte do lucro destinado aos acionistas minimiza o crescimento da empresa. Para um investidor com perfil de Warren Buffet, que compara a compra de ações com um casamento para a vida inteira (”Our favorite holding period is forever“), o dividendo passa a ser uma remuneração justa. Há quem defenda que este dinheiro já era direito do acionista, por ser dono de uma parte da empresa.
Neste e no próximo irei comentar sobre algumas curiosidades relacionadas a este tema.
Data “ex-dividendos” - é possível ganhar dinheiro no curto-prazo com dividendos?
Quem nunca pensou em comprar uma ação apenas para receber dividendos no curto prazo? Parece um método brilhante de conseguir dinheiro, mas se fosse verdade, todos o fariam. Todas as empresas divulgam as data “ex-dividendo” da ação. Se você abrir o pregão com a ação na carteira na data em que o papel passa a operar “ex-dividendos”, você terá direito a recebê-los (normalmente poucos meses depois).
Agora imagine que você compre essa ação um dia antes da data ex-dividendos e ganhe esse direito de receber 3% de dividendos. Isso significaria um rendimento de 3% em apenas um dia, certo? Errado! Isso não acontece pois a cotação da ação é ajustada para baixo na mesma proporção de modo a cancelar este rendimento.
Isto significa que se no dia anterior o fechamento da ação foi em R$ 100,00, a ação vai abrir a R$ 97,00. O que acontece é que as vezes o mercado não acredita nessa diferença de 3%, e a ação acaba voltando aos patamares de R$ 100,00. Esse aumento pode ocorrer no mesmo dia ou demorar um tempo.
Então valeria a pena comprar uma ação na abertura do dia ex-dividendo, pensando apenas na valorização “pós-queda”? Nem sempre, pois esse ajuste no preço tem fundamentos e o mercado pode demorar a precificar esta ação ao patamar anterior.
Correlação entre P/L e pay-out
Se compararmos o indicador P/L e o pay-out de empresas, podemos encontrar uma correlação interessante. Empresas que tem pay-out elevadíssimo podem ter um P/L abaixo da média. Para explicarmos o porquê desta correlação, precisamos verificar quais têm pay-out elevado.
Entre os setores que apresentam pay-out elevado podemos citar as de concessionárias de rodovias, elétricas, saneamento e ferroviárias. Normalmente este tipo de empresa depende de concessões do governo que duram muitos anos e, algumas vezes já atingiram o nível de “saturação de crescimento”, não necessitando imediatamente de capital para novos investimentos. Existem também empresas que não reinvestem o lucro pois preferem captar dinheiro com empréstimos.
Agora que sabemos o tipo de empresa que tem pay-out elevado, podemos fazer a correlação com um P/L. Como vimos em um post anterior, o P/L é a razão entre preço da ação e lucro líquido por ação. Normalmente o preço da ação de uma empresa já embute uma expectativa de crescimento futuro. Isso significa que empresas com forte crescimento anual costumam apresentar P/L elevado.
As empresas que não reinvestem o lucro e também não captam empréstimos, crescem menos. Desta forma, o preço da ação não embute esta expectativa de crescimento, reduzindo o indicador P/L.
Reinvestir lucro líquido ou buscar empréstimos?
Existe o caso específico das empresas que distribuem grande parte do lucro líquido em dividendos e para compensar, injetam capital “novo”. Isto acontece com frequência em empresas que obtêm empréstimos ou lançam debêntures no mercado (podemos o caso das Lojas Americanas, que distribui mais de 90% do lucro líquido, mas investe capital utilizando empréstimos).
Quando as empresas precisam de caixa para realizar grandes projetos (como a concessão do Rodoanel, por exemplo), é possível captar dinheiro através de emissão de debêntures ou financiamentos de longo prazo (veja esta notícia sobre o financiamento da CCR).
Na realidade, faz sentido captar dinheiro em um empréstimo de longo prazo para uma obra que trará benefícios também de longo prazo. Isso explicaria o motivo pelo qual uma empresa pode ter P/L e pay-out alto. Mas existe uma questão a ser levantada:
Será que se a empresa mantivesse o lucro líquido reinvestido a taxa Selic, não seria um capital mais barato do que um empréstimo de longo prazo?
Essa é uma decisão que a empresa precisa fazer, levando em conta seu custo de oportunidade.
No próximo post falaremos sobre a isenção do IR sobre dividendos e o motivo pelo qual algumas pessoas acreditam que a Selic pode ser limitadora da taxa dividend yield.



Daniel Heise em 19 de junho de 2008 #
Bruno, acho interessante lembrar que existe uma relação direta entre a alavancagem das empresas (endividamento) e a taxa de investimento do PIB (que é o que sustenta o crescimento do país). Se as empresas não se alavancam e se também não reinvestem os lucros, a taxa de investimento não sobe. Hoje temos uma taxa de aproximadamente 18-19% do PIB, disso apenas 1,5% é investimento público, o resto todo é investimento privado. O PAC da Dilma inteiro, se for realizado, representa 0,5% do PIB (parece piada, mas muitos caem nessa lorota do Lula). Se o Brasil quiser continuar crescendo mais do que 4% ao ano (levando a Bolsa para cima) a taxa de investimento do PIB tem que subir para uns 25%. Quem pode fazer isso são as empresas privadas, reinvestindo os seus lucros ou se alavancando com empréstimos. Quem aposta na geração de riqueza no Brasil tem que apostar nisso, do contrário, voltamos para os voos de galinha…
Bruno Yoshimura em 25 de junho de 2008 #
Eu não tinha idéia desses números, enriqueceu bastante o post,
Abraços